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2 de set. de 2014

Linchamento no Poste Virtual - em Defesa da Gremista do Grito Racista.

Sim, venho aqui defender a garota.
Não, não a acho inocente.
Sim, acho que ela deve pagar o crime cometido.

Contudo, existe um negócio chamado bom-senso.
E existem também as leis.
E mais: existe uma parte da sociedade extremamente violenta - aqueles que lincham meninos negros amarrados em poste, e também a senhora branca de Bíblia na mão porque achavam que ela era feiticeira (não, isso não é na África!).

Óbvio que essas pessoas estão na Internet também! E estão atacando apenas virtualmente porque não tem acesso à pessoa, porque se tivessem, o fariam fisicamente até esfacelar seu crânio.
Mas só o fazem em grupo ou com a certeza do anonimato, porque são todos COVARDES.
A casa já foi atacada.

Movidos pelo desejo de agredir, de matar, essas pessoas só precisam de um motivo para se sentirem livres para soltar seus demônios e dar vazão à sua gana assassina, seu desejo por sangue.
Não, não são pessoas boas revoltadas. São os que atiram pedras na mulher enterrada até a cabeça no chão para matar a "indigna".

Por isso, a gremista que encetou a cena de racismo gritado e televisado, deve ser protegida da horda sedenta de sangue para, até, ser julgada na forma da lei, pagar seus débitos e crescer como ser humano.

Um dado que me ajudou a formar uma opinião sobre o assunto foram as entrevistas realizadas com vizinhos negros da menina, que conviveram com ela, interagiram com ela, receberam-na em sua casa, e foram tratados com respeito e bom humor por ela. E por terem essa visão maior do conjunto complexo que é este ser humano que cometeu um erro, estão defendendo-na e, como disseram, estão com ela até o fim, apesar de acharem que deve haver o seguimento dos tramites legais. Mas nada mais que isso.

Há que se ter cuidado com vídeos. Uma narrativa do acontecido, apesar de definir perfeitamente o ato, teria muito menos peso e mais bom-senso.

Tudo bem, ver a cena induz o sentimento de revolta. Mas como seus vizinhos com propriedade disseram (porque tem mais informações que nós, o que dão a eles uma visão mais abrangente), "ela é uma menina normal que foi no embalo da multidão" e merece seguir a vida depois de pagar o erro cometido.

E que se encontrem e processem os outros espectadores que também protagonizaram cenas terríveis, caso contrário não haverá justiça - apenas um bode expiatório.

O que a garota fez foi feio de se ver e de se sentir, quando empaticamente nos colocamos no lugar do agredido, mas tudo tem a sua medida e seu recipiente.
Se é para se julgar, que seja sem ódio obnubilante e com visão de conjunto.
Este é um caso para 20 anos de reclusão? Para pena de morte? Óbvio que não.
Muito menos para linchamentos, que deve ser sempre REPUDIADO de todas as formas.

Não para a violência e o ódio, sempre!

O Jogador aranha, ao qual acompanhei várias falas e passei a admirar como pessoa, com certeza está com este espírito de que as coisas se deem no sentido de amenizar os ódios, os preconceitos, de haver uma mudança, e não mais violência.

Sim, é tanta raiva expressa, vinda de tantas pessoas, que a menina está pagando muito mais do que deveria! Que ela seja julgada. Que pague, que indenize financeiramente o Jogador por danos morais, se assim a justiça entender.
Mas, depois de pagar tudo que deve, espero que volte tendo aprendido sua lição e se recupere em todos os sentidos.

E que seja acolhida como pessoa melhor, se assim mudar.

Cuidado com todo ódio. Se você o sente, seja por que motivo for, ligue todos os alarmes: o lobo que existe em você está bem alimentado!

1 de set. de 2014

O Operador Morte: de Getúlio Vargas a Eduardo Campos

Em um texto anterior (aqui), brinquei com uma analogia na vida e na sociedade do conceito de operador: um ente matemático tal como a raiz quadrada de um número, a soma e subtração – ou mais complexos como os que atuam na Mecânica Quântica – transformando uma função em outra, mudando o estado daquilo que sofre sua atuação.

Achei interessante – num exercício de livre-pensamento – a transposição deste conceito matemático para conceituar aqueles eventos transformadores das coisas da vida e do mundo – tal como as pessoas, instituições e países.

Por conta desta ação, tudo é transportado de um estado anterior para outro, ulterior – que pode ser melhor ou pior, maior ou menor, mais simples ou mais complicado.

Dentre os muitos operadores possíveis para as hiper-complexas equações humanas, existe um que surge (como uma das únicas certezas humanas) e muda tudo, sempre.

Este super-operador é a senhora MORTE.




Poderosa e isenta de dúvidas –  inescapável extintora da vida, desagregadora das moléculas do corpo – faz o despejo da alma.

Ocasiona, também, ao meio onde o ente "operado" viveu, dor, vazio, comoção e outras transformações. Por tabela, muda a vida de muita gente - as vezes de nações inteiras!

Mas a mais pitoresca (e irracional) ação deste operador é tornar os atos do ex-vivo – principalmente os que antecederam imediatamente a morte – em algo transcendente, repleto de significado.

A morte operadora suprime  (ou mascara) a "parte má", e exalta (ou diviniza) a "parte boa" da pessoa extinta – se assim puder ser, de algum modo, interpretada. Além disso, pode gerar uma reação de aversão (ou revolta) sobre aqueles que estavam, antes, hostilizando o ente falecido, fato este que pode minar a força e poder de seus adversários (se existirem), e trazer acusações de toda sorte.

Após a operação desestabilizante de extinção da vida, a morte pode transformar um vilão em herói; um assassino/genocida em mártir; um ditador em pai da pátria!

Pode-se também, através deste operador, "sair da vida para entrar na história".

Getúlio Vargas, autor da frase acima, em 2014 volta à mídia devido ao aniversário de 60 anos de sua morte, operada por ele em si mesmo através de um ato suicida.

Outra morte em evidência nestes dias pré-eleições – e exemplo perfeito dos efeitos aqui pressupostos (e o motivador destes escritos) – foi a do candidato à presidência da República Eduardo Campos, em um fatídico acidente de avião.

Me chamou muito a atenção esta coincidência. Duas mortes que transformaram, traumaticamente e repentinamente, a cara do Brasil.

Exemplos de outros passamentos repletos de significado para o país foram as de Tancredo Neves, Tiradentes, Juscelino Kubitschek e Ulysses Guimarães.

Getúlio Vargas, 1954, sabia deste poder operatório e transformador da morte, e se utilizou destas propriedades para inverter a favor de seu grupo o estado político do Brasil à época. Vivia o famoso brasileiro, em seus dias derradeiros, uma situação entendida pelos historiadores como sem saída: ora denominado ditador, ora "pai dos pobres", estava – mesmo na condição de presidente eleito – para ser deposto pelas forças armadas e ser preso.
A morte operada por suas próprias mãos foi a solução encontrada por ele para esta situação –
calculada para ser um ato, antes de tudo, político.
A comoção nacional ante tão forte e tresloucado ato, traria tanto simbolismo e significado que iria destruir os planos de seus adversários, forçando-os a se colocar na defensiva. A força de seu suicídio traria a vitória, e Getúlio, morto, sairia para sempre do palco da vida para deitar, vitorioso, no berço esplêndido da nação. O poderoso operador morte levaria a nação de um estado a outro!

E assim foi: a operação mudou totalmente a função Brasil-1954, e com ela o estado das coisas e o destino da nação (como está amplamente registrado nos livros de história).

Tempos atuais: Eduardo Campos, 2014 – terceiro colocado nas pesquisas para presidente da República – dificilmente sairia desta colocação; segundo informações, ele sabia disto e sua verdadeira intenção seria de se projetar nacionalmente – com olhos fixos nas próximas eleições.

Marina Silva, a ecologista ex-companheira de Chico Mendes, a mulher franzina de projeção nacional, filha da floresta amazônica, era sua candidata a vice – posição acatada depois de muitas atribulações partidárias, pois a intenção mais profunda de Marina era a de concorrer à presidência – o que não pode fazer por força das circunstâncias.

Foi uma trama de acontecimentos difícil de entender que a levou a esta situação, e somente um fato excepcional tornaria possível seu desejo de mudar o estado: de candidata a vice para chefe do poder executivo.

Estavam, então, a poucos meses da eleição, com estabilidade de índices onde a disputa, se houvesse, seria polarizaria entre os dois outros partidos que há muito tempo se revezam no poder; mas, inesperadamente (como comumente acontece – sorrateira que é a moça da foice), a morte operou: um acidente de avião misterioso e fatídico que, ao explodir na cidade, desceu como uma bomba sobre a nação.

"Não pode ser verdade!" "Como?" "Porque?" "Parece coisa do destino".

Esta é a primeira ação das tragédias: o assombro, a dificuldade de acreditar; depois vem a busca do entendimento, dos porquês; em seguida a aceitação e adaptação, entremeada de teorias conspiratórias.

No meio de todas destas fases, a outra ação do operador-ceifador é tornar tudo maior que era: se antes se tratava de um "simples" candidato com seu índice de aceitação e de rejeição bem definidos (e com as inevitáveis denúncias e montagens na Internet sendo feitas como sempre se vê), Campos agora era o elemento surpresa, o salto no gráfico, o dono das emoções e pensamentos da nação.

A trajetória do falecido ganhou destaque e importância, impregnadas de uma certa "aura luminosa" de predestinação, onde até as coincidências são supervalorizadas: na sua última entrevista na TV, sua frase de efeito dita no encerramento, "não desistam do Brasil" soou, diante da tragédia (ocorrida logo após) como mantra, profecia, mandamento!

Tudo ganhou importância, ares de predestinação, de destino!

Por conta desta atmosfera, os adversários foram colocados em uma posição delicada.  Falar mal não seria mais de bom tom. Aliás, melhor entrar na onda e dizer que se é o verdadeiro herdeiro do legado do falecido. E foi o que aconteceu.

Por outro lado, os olhos se voltaram rapidamente para Marina. A equação, transposta de estado pelo operador morte, fechava a conta nela. Com a ex-seringueira como candidata no lugar de Campos, o destino parece se cumprir!

É uma mensagem subjacente, sentida, cheia da energia que vem do assombro e da estranheza. É o sentimento de predestinação.

Este é o exemplo perfeito da força das tragédias e da morte, de como eles brincam com a emoção de uma coletividade, transformando tudo, virando as peças de pernas pro ar e gerando uma nova realidade.
Tudo que foi dito aqui pode ser visto e sentido objetivamente olhando o gráfico com as intenções de voto desde antes do acidente:
Fonte: Blog Brasil Decide.

Assim, ao que tudo indica, o futuro do país tomou um novo rumo. Sai-se, por conta do acontecimento, de uma dicotomia de partidos e entra-se em uma terceira via; Marina, uma surpresa fora do comum desde outras eleições, sofre um golpe do destino a seu favor.

Se continuará assim, se será bom ou ruim, eu não sei, mas que foi mais um episódio histórico derivado de uma morte significativa para ser sempre lembrado – e que está desenhando novos caminhos para o Brasil – ninguém pode negar.

Somente o frio operador morte pode gerar transformações tão intensas em tão curtos períodos. Sai-se da vida e, indubitavelmente, se entra na História.

Contudo... que Deus nos livre deste operador!

DiVal.

14 de abr. de 2014

Filosofia Bundocêntrica: Ser vadia é ser livre (?)

Há muito muito tempo atrás, surgia em terras tupiniquins Gretchen –  a matriz geradora de todas as "misses bumbum". Desde então vem ocorrendo, digamos assim, um fenômeno popular de grande sucesso com moças bem dotadas em danças sexualizadas – quase ginecológicas –, baseado no atributo negritado.
E aí assistimos ao longo de muitos anos – sem sacar muito bem a revolução que estava acontecendo – uma sucessão de "grandes sucessos" de matriz bunda lelê, como os do "É o Tchan" e suas "Sheilas", e de uma infinidade de fêmeas-fruta.

Assim, depois de anos sucessivos de grande abundância, chegamos vivos ao começo de 2014, onde tivemos o privilégio de presenciar o funk da cantora Valesca Popozuda, denominado “Beijinho no Ombro”, fazer muito sucesso, trazendo-a aos holofotes da mídia e a colocando involuntariamente em uma polêmica por ter sido chamada de "grande pensadora contemporânea" –  uma provocação de um professor de filosofia em uma prova no Distrito Federal.

Em decorrência deste fato – pois a provocação foi mais que bem sucedida e virou notícia nacional – Valesca deu uma entrevista para a revista ÉPOCA (abril de 2014), cujo título é:


Bom para ela, que ganhou um marketing inesperado!
Em tempo: A entrevista que ela deu mostrou que é uma mulher inteligente, de opiniões fortes e com boa articulação. Sabe o que quer, o que faz e onde quer chegar.

Mas e quanto à opinião expressa por ela? Ser vadia é mesmo ser livre? Tomo aqui a palavra vadia como definição de uma mulher que assume sua sexualidade e lida com seu corpo sem vergonha (ou sem-vergonha!), dando de ombros para a sociedade, fazendo o que quiser, onde quiser.

Quanto à frase que me motivou a escrever este texto, posso dizer que discordo como a ideia foi colocada: se ser vadio é ser livre, implica que quem não é vadio não é livre? No contexto atual de liberdade de expressão no Brasil, pode-se afirmar para a maioria dos casos, lugares e situações, que com certeza: 

Ser vadia (ou vadio) não traz a liberdade por si mesmo, mas significa que temos a liberdade de poder escolher ser! 

E isso é bom!
Deste modo, eu não sou livre como resultado direto do fato de ser "vadio", mas se sou livre posso tranquilamente escolher vadiar e – se respeito os limites da sociedade e uso do bom senso –ninguém tem nada a ver com isso! 

Penso que esta frase, colocada pela mãe da filosofia "popocêntrica", foi bem pertinente ao traduzir o pensamento de uma parte da "expressão cultural" do país; este fato, quando assumido, traz a necessidade de uma reflexão por um detalhe que deriva deste "movimento" (esquecendo as derivações auditivas): a exploração de performances quase pornográficas e letras que vão no mesmo sentido na consciente sexualização evidenciada por artistas do gênero bundal tem como platéia não só homens hipnotizados, mas todos que tem ouvidos de ouvir, inclusive as crianças (estão por aí os carros com som na estratosfera que não me deixam mentir).

São novos tempos e costumes, e teremos de lidar com as mudanças, o que a princípio é bom.
Mas o que se pode pensar sobre estes fatos?  É algo que permeia a mídia, a TV, as rádios, e os amplificadores sendo, portanto, atualíssimo, preocupando pais e educadores e levando a sociedade refletir em muitos momentos.

O fato é que estes cantores populares, por estarem em evidência, exercem influência sobre os mais jovens e contribuem para os moldar, e por este motivo talvez seja relevante e interessante também nós sermos grandes pensadores do assunto.
Nesta linha de análise da nossa sociedade, percebe-se que como resultado do "movimento", e implícita no título da reportagem, está a ideia de que – sinteticamente falando – para ser "legal", tem de "descer até o chão", sempre com pouco pano e em poses ginecológicas.

Coisas a se pensar, num exercício de livre pensamento, já que o assunto que foi abordado, ser vadia ou vadio, foi evidenciado:
Uma mulher assumidamente vadia, é legal? E um homem vadio?
E as crianças que recebem essas mensagens? E os pais, os educadores-mor, que tem a filha que caminha para se tornar uma "vadia"? Você, caro leitor,  na condição de pai ou mãe, o que sentiria ou pensaria? Educaria sua filha para ser livre e escolher ser vadia, se ela assim desejar? E quanto ao termo "vulgaridade", ele é pertinente aos dias de hoje? O que é ser uma mulher (ou mesmo homem) "de classe" ou "vulgar"? Isso ainda tem sentido? Existe um ditado que diz que a mulher perfeita sabe ser vadia na cama e dama na sociedade.

Enfim, essa liberdade de ser vadia/o – se uma mulher/homem assim desejar – é boa ou ruim no total da soma? Em minha opinião, com certeza! Uma das maravilhas do mundo moderno, uma liberdade adquirida a duras penas pelos seres humanos e ainda mais (muito mais) pelas mulheres!

Mas sempre tem a questão do outro: minha liberdade entra no limbo quando desestabilizo os que alcanço. Quando o assunto é sexo/sexualização, eu tenho o direito de fazer o eu que quiser, onde quiser? Os pais tem o direito de não ver sua criança presenciando letras e cenas explícitas de conteúdo sexual?

Como opinião pessoal, posso dizer:

  • Viva a liberdade de sermos vadios (se assim desejarmos)!
  • Viva a mulher/homem que tem a capacidade de ser vadia/o em deliciosos momentos!
  • Viva a desrepressão organísmica!

Em segundo lugar, posso dizer que não consigo sentir como algo positivo "ser" vadia/o o tempo todo, em vez de "estar" num momento da vida, de experimentar como uma fase, se assim a pessoa sentir necessidade/vontade, como parte integrante de uma vida rica em vivências.
Também não vejo como ser positivo a invasão dos espaços: o mundo de quem não deseja vivenciar certos exageros, ou que seu rebento seja "violentado" no desenvolvimento de sua sexualidade, deve ser respeitado.
Como se fará isso, não sei: dramas da vida moderna!

Dentro de meus limites pessoais posso dizer que não aprecio, com grandes chances de virem inseridos no pacote da vadiagem como filosofia de vida (coisas que a gente vê): a libertinagem, a irresponsabilidade com o próprio corpo, a vulgaridade, a invasão dos espaços escandalizando e influenciando as mentes em formação e deixando pais preocupados, e a negação dos direitos dos outros.

Dou – destacando a ideia central deste texto – meus aplausos sinceros à liberdade já conquistada e a quem luta pelo direito de sermos o que desejamos – respeitando os limites dos outros – ser.
Por fim, acrescento que não desejo que minha história ressoe pela eternidade como aquela produzida por um ser fútil, sem vida interior e que só vadiou toda vida – e nada mais.

Sejamos livres, então, e que a vida seja rica e valha sempre a pena!

EdiVal
14/04/2014